Um mosteiro urbano
Em meio ao caos da metrópole nasce um espaço de convivência e aprendizados
Não é no alto de uma silenciosa montanha, mas na barulhenta São Paulo, que a Sala Therigatha abre as portas de seu Mosteiro Urbano Zen como um convite a viver com mais compartilhamento, presença e harmonia. Uma pausa no meio da rotina acelerada para sentir o sabor do chá, para colocar atenção no inspirar e expirar, para praticar o Zazen, que é o sentar-se em meditação, pratica principal da Escola Budista Soto Zen Japonesa. A ideia do mosteiro, que escolheu se instalar no bairro da pompéia, na capital paulista, é que cada um possa ser seu próprio “eu mosteiro”, um local que busca restabelecer a relação com a cidade, propondo um “estar no mundo”mais atento e atencioso, fortalecendo as práticas espirituais de forma coletiva, e não no isolamento.
“Nós somos o mosteiro. Um edifício desocupado não significa nada. Ele só ganha significado quando torna-se abrigo”, diz a Monja Sensei Wahô.
Nos retiros, fazer as refeições juntos, meditar juntos e também sair para fazer a limpeza da cidade são formas de sentir que não existimos sem o outro. E, em cada atividade, encontro ou cerimônia realizada, o chamado é para que possamos doar a nossa presença verdadeira, que é o que temos de mais precioso, desenvolvendo a capacidade de estar consciente sobre nós e sobre estar em comunidade. Porque nunca estamos sozinhos; somos inteiros enquanto há o encontro e a partilha.
Monja Waho Degenszajn
Iniciou sua prática budista em 1998 no Templo Busshinji – sede da tradição Soto ZenShu para América do Sul, em São Paulo/ Brasil.
Em 2001, foi uma das fundadoras da Comunidade Zen Budista Zendo Brasil, comunidade que se formou para dar condições à Monja Coen Roshi, de prática e difusão dos Ensinamentos de Buda, a fim de beneficiar inúmeros seres.
Foi ordenada monja na primavera de 2007 e na primavera de 2015 recebeu a Transmissão do Darma da Monja Coen Roshi, tendo realizado a Cerimônia de Zuissê (abadessa de uma noite) nos Templos Sedes de Eiheiji e Sojiji, no Japão em abril de 2016.
Em 19 de fevereiro de 2014, fundou espaço de prática em Pinheiros, a Sala Therigatha de zazen (meditação Zen) que desde então vem se constituindo na Sanga (comunidade) e o Mosteiro Urbano Zen Therigatha.
Inspirar a prática do Zazen tem sido a base de sua caminhada, apoiando aqueles que desejam se aprofundar no Caminho Budista e no Despertar.
Mestre fundadores
Dogen Zenji
Mestre Eihei Dogen, o quinquagésimo primeiro ancestral do Darma, nasceu em 1200, na Província de Kyoto, durante o Período Kamakura da história Japonesa. Filho de nobres, descendente do imperador por meio do príncipe Go Tchutchô.
Keizan Zenji
Foi o 54º. Ancestral do Darma, da 3ª. Geração dos sucessores de Mestre Dogen ( 1200 – 1253) e 4º. Ancestral Fundador da Escola Soto Zen do Japão.
Mulheres Monjas
Canções das mulheres anciãs
Homenageando a linhagem das mulheres monjas, o nome Therigatha significa “canções das mulheres anciãs”, conjunto de poemas religiosos de iluminações das primeiras Monjas Budistas na Índia.
A primeira monja histórica, Mahaprajapati, mãe adotiva de Xaquiamuni Buda, após inúmeros pedidos ao Grande Mestre Original, recebeu a ordenação monástica, aceitando manter oito regras a mais, daquelas mantidas pelos monges.
Talvez muitas de nós ficaríamos indignadas e esqueceríamos do nosso propósito maior.
A busca pelo estado desperto e pela possibilidade de prática junto à Grande Sanga, não foi obstruída.
Com a ordenação de Mahaprajapati, historicamente, começou a se formar a linhagem das mulheres do caminho.
Certamente, por inúmeros países e continentes estas mulheres deixaram seus descendentes e até hoje continuam a espalhar o Darma de Buda em todas as direções, chegando até nós.
Que nossas salas de zazen possam guardá-las e que em nosso zazen, possamos mantê-las vivas.
Nossa Prática
O Mosteiro Urbano Zen Therigatha, mantém e preserva a prática de zazen em vários formatos diferentes, são eles:
Quer dizer literalmente “sentar em zen”. Zazen é a principal prática da Escola Soto Zen Shu do Budismo Japonês, onde sentamos de frente para a parede, prática silenciosa sem objeto de meditação. Sua duração que pode variar, de 30 a 40 minutos, sempre sentando dois períodos, intercalados com Kinhin (ver abaixo). Existem várias maneiras de se sentar em zazen: no zafu (almofada própria) com as pernas cruzadas; no banquinho com os joelhos tocando o chão ou em uma cadeira sem usar encosto. As costas devem ficar eretas, os olhos entreabertos, olhando para baixo e a língua encostada no céu da boca.
Meditação caminhando lentamente em fila, que ocorre entre dois períodos de zazen. Costuma durar 10 minutos. Os passos são lentos, curtos. Avança-se somente meio passo a cada vez.
Esta prática propõe a realização do zazen em locais públicos. As pessoas se sentam para fazer zazen em círculo no meio da balbúrdia da cidade, acolhendo àqueles que passam e que porventura queriam se sentar para praticar.
Esta prática surgiu durante a pandemia do coronavírus e permitiu aos praticantes se sentarem em zazen todos os dias; e se mantém como possibilidade para aqueles que moram em outras cidades ou tem dificuldades de estarem na prática presencial. Para mais informações entre em contato.
Trabalho ou prática comunitária, é quando a meditação se realiza nas atividades diárias, tais como limpeza, costura, jardinagem, consertos domésticos etc. Muitas dessas atividades são realizadas no mosteiro urbano e fazem parte importante da prática budista de nossa ordem.
A alimentação dentro da prática budista envolve um conjunto de ações que se inicia antes mesmo da comida ser posta na mesa. Cada praticante usa um conjunto de tigelas e talheres, chamado orioki que são envolvidos em guardanapos de pano. Antes do início da refeição, fazemos a prece chamada, INVOCAÇÃO DAS REFEIÇÕES (Gyo Hatsu Nenju), feitas antes de abrir os oriokis, enquanto nos servimos e após a refeição. Durante a prática de orioki, isto é, durante as refeições formais, espera-se que o silêncio seja respeitado.
Um dia de retiro que alterna zazen, kinhin, liturgias, samu, e leituras do Darma. As refeições incluem o orioki.
Quer dizer literalmente “unificar a mente”, é um retiro com duração de alguns dias. A prática se inicia cedo, o horário pode variar iniciando sempre com zazen. Em seguida acontece a cerimônia da manhã (Tchoka). Há alternância entre zazen, kinhin, samu, cerimônia do meio-dia (Nitchu Fugin) e cerimônia da tarde (banka Fugin). As refeições são realizadas com o orioki. Normalmente nos sentamos de 8 a 10 períodos de zazen no dia.