Dogen Zenji

Eihei Dogen

Mestre Eihei Dogen, o quinquagésimo primeiro ancestral do Darma, nasceu em 1200, na Província de Kyoto, durante o Período Kamakura da história Japonesa. Filho de nobres, descendente do imperador por meio do príncipe Go Tchutchô.

Aos dois anos de idade perdeu seu pai e foi adotado por Fujiwara Moroie, irmão mais jovem de sua mãe, regente-chefe e conselheiro do imperador. Seu tio passou a ele segredos a respeito de sua família e o ensinou coisas importantes sobre o país. O clã esperava que Dogen ocupasse um cargo importante quando crescesse.

Conta-se que, com 3 anos de idade, ele lia poesias chinesas com a dedicação de sua avó.

Aos 6 anos, apresentou uma coleção de poemas antigos chineses ao seu padrasto. Nessa época, os estudiosos eruditos veneráveis de Confúcio disseram: “este menino nāo é uma pessoa comum. É uma criança extraordinária”.

Ele perdeu sua mãe aos sete anos e sua tristeza foi profunda. Segundo Mestre Keizan, durante o funeral, ao ver o incenso se levantar no ar, ele despertou à impermanência da vida e da morte e subsequentemente surgiu nele o pensamento da iluminação.

Na primavera de seu oitavo ano, ele leu o Abidarma-kosa de Vasubandhu. Veneráveis antigos monges disseram “ele é tão sábio quanto Manjusri – bodhisatva da sabedoria – e tem uma capacidade para Mahayana – “grande veículo”.

No seu décimo segundo ano, foi feita a cerimônia da obtenção do estado de adulto, e seu padrasto queria fazer dele um oficial membro da corte. Porém, Dogen fugiu da vida de Kobatayama e foi a pé até o monte Kien, onde seu tio pelo lado materno, monge Yokan Hogen, era diretor do Mosteiro da escola Tendai.

Diante de sua vontade de seguir o caminho monástico, seu tio, surpreso e admirado, permitiu que Dogen se tornasse seu aluno e que estudasse na casa Senku em Shuryio Go Min, no vale Hanya, Riokawa.

Aos treze anos foi ordenado monge pelo Abade Koen do Templo de Enryakuji, no monte Hiei, o centro do buddhismo escolástico no Japão medieval. Ali, ele iniciou o estudo sistemático dos sutras budistas. Nos anos que se seguiram, estudou as doutrinas Tendai do buddhismo.

No curso de seus estudos deparou-se com uma interrogação que o acompanhara por muitos anos:

“Se todos os seres humanos são dotados da natureza Buda desde o nascimento, por que então os budistas de todos os tempos buscam incessantemente a iluminação, empenhando-se na prática espiritual? “

Em sua busca pela resposta para esta questão, decidiu visitar outros mestres. Visitou o mestre Koin, um outro tio maternal, abade da escola Tendai do Templo Onjoji. Este o enviou ao Templo de Kenninji, em Kyoto, cujo abade era o monge Myosen, discípulo de Eisai, que havia introduzido o Zen Rinzai no Japão. Ele se juntou à comunidade e se tornou aluno de Myozen aos 17 anos, passando a viver como um monge Zen-Rinzai.

Foi no encontro com Myozen que Dōgen tomou ciência do budismo zen, e reconheceu que nenhum outro mestre se igualava a ele na dinâmica de transmissão correta do budismo. Recebeu de Myoden os preceitos de Bodisatva pela segunda vez, ouviu sobre o estilo Rinzai pela primeira vez. Ele também recebeu a correta linhagem das três tradições – esotéricas, exotéricas e da mente.

Em 1221, Myōzen conferiu a transmissão do darma a Dogen, reconhecendo que ele havia compreendido os ensinamentos. No entanto, Dogen ainda se sentiu espiritualmente irrealizado e sua inquietação levou-o a empreender a viagem à China em busca de conhecimento entre os grandes mestres fundadores.

Em 1223, Dōgen partiu para a China, em difícil viagem marítima. Junto com ele, o mestre Myozen. Sua intenção era aprofundar os estudos em mosteiros de tradição zen.

Num dos pontos de ancoragem do navio, ocorreu um dos famosos episódios do encontro de Dōgen com um monge cozinheiro chinês, de 61 anos, que veio ao navio em busca de shitake japonês. Estranhando essa tarefa exercida por um monge idoso, Dōgen indagou ao cozinheiro se não seria mais pertinente dedicar seu tempo à prática do zazen ou ao estudo dos koans, em vez de um trabalho duro como o de Tenzo. Em resposta, o velho monge desatou em risos e fez a seguinte observação: “Meu bom amigo estrangeiro! Tu não compreendes ainda em que consiste a prática, nem conhece o significado dos caracteres.” Foi uma verdadeira lição para Dōgen, como uma luz que acendeu em sua consciência. Pôde perceber que no simples e cotidiano trabalho na cozinha, como Tenzo, alguém pode viver plenamente a experiência do Zen autêntico, do Budadarma.

Na China, Dōgen visitou vários mosteiros junto com o mestre Myozan. Na ocasião o budismo chinês vivia numa situação de dificuldade e declínio. Nesse contexto desfavorável, os mestres Zen passaram a se envolver na política e os mosteiros dessa tradição tornaram-se centros de vida social e política.

Dogen ficou descontente diante do empobrecimento daqueles que se proclamavam descendentes de Buda e do enfraquecimento dos ensinamentos do Caminho. Suas críticas se voltavam não apenas à situação geral do budismo, mas também à ordem Rinzai, muito popular na época.

Nesse contexto, apesar das viagens realizadas por ele pela China lhe favoreceram um bom conhecimento do budismo chinês, não lhe possibilitaram acesso a um verdadeiro mestre.

Assim, Dōgen resolveu voltar ao Japão, porém fez uma última visita ao monte T’ien-t’ung, onde estava adoentado seu mestre Myozen e também, seguir a indicação de um velho monge do templo de Chiug-shan Wan-shoussu, que lhe falou de um famoso mestre, Ju- Ching (Tendo Nyojo) que assumiu a função de abade no mosteiro de Ching-te-ssu, no monte T’ien-t’ung, em virtude da morte do abade.

O contato com Ju-Ching (Tendo Nyojo)  aconteceu no quinto mês de 1225. O acolhimento foi caloroso, e entre os dois ocorreu o desvelamento do mistério do Dharma.

Nyojo era um mestre muito rigoroso, o treinamento levado a cabo no mosteiro era referido como sendo muito duro e difícil. Os monges dormiam pouco e se dedicavam durante muitas horas do dia à prática da meditação sentada silenciosa (zazen). A principal instrução recebida por Dogen foi para que abandonasse corpo e mente ao caminho, significando um abandono completo de si mesmo e de toda e qualquer ideia de identidade ou preconcepções acerca dos próprios ensinamentos, dedicando-se à prática central da meditação silenciosa com todo o seu ser:

“Deixar cair corpo e mente é sentar em meditação. Ao praticar sinceramente o intenso sentar, os cinco desejos desaparecem e os cinco obstáculos são removidos.”

Certa vez, durante o último período de zazen, o mestre Nyojo entrou à sala de meditação e advertiu aos monges que estavam dormindo dizendo “a prática de zazen é abandonar corpo e mente. Ela não depende de queimar incenso, fazer reverências, invocar nomes de Buda, fazer o arrependimento ou recitar as escrituras. Se você apenas sentar-se com plena atenção de todo o coração, você obterá.”

Ouvindo isso, Dōgen subitamente teve o grande Despertar. Foi imediatamente aos aposentos do abade, ofereceu incenso e o mestre perguntou a ele:

  • Porque está queimando o incenso?
  • Corpo e mente foram abandonados – respondeu o Dōgen.
  • Corpo e mente abandonados é o abandonar do corpo e da mente –disse o mestre
  • Isso é uma habilidade temporária, o senhor não deve me aprovar sem razão – disse o Dōgen
  • Eu não o estou aprovando sem razão! – respondeu o mestre.
  • Como o senhor não me aprova sem razão? – perguntou o Dōgen
  • Você abandonou corpo e mente. Você abandonou o abandonar – disse o mestre

Assim em 1225, ele se tornou a quinquasésima primeira geração da linhagem. Nyojo Zenji instruiu-o: “volte ao seu próprio país de uma só vez e transmite o Caminho Ancestral. Esteja só nas montanhas profundas e amadureça o que você obteve”.

Dōgen voltou ao Japão em 1227. Ele retornou com as “mãos esvaziadas” de sutras, imagens ou documentos. Trazia para seus conterrâneos apenas o seu corpo, a sua mente e sua existência, agora libertados das amarras do ego e radicalmente transformados.

Assumiu o Mosteiro Kenin por três anos. Lá, escreveu Fukanzazengi, com os conselhos práticos em torno do zazen, para que muitas pessoas pudessem aprender sobre o Zen.

Devido às tensões que começaram a surgir quando a comunidade Tendai tentou suprimir tanto o Zen como a escola Nyojo, as novas formas de Budismo no Japão, Dogen Sama foi ameaçado por monges e salvo por Hatano, o magistrado que os levou para o Templo Anyoin em Fukakusa.

Com o crescimento de seus discípulos, Dogen e a comunidade se transferem para o Templo Kosho-Horinji, uma ampliação do original Kannon-Dorin, onde permaneceram por 10 anos. Foi ali que escolheu Koun Ejo como seu discípulo. Os dois trabalharam juntos para a afirmação da escola Soto Zen no Japão.

O templo de Kosho-Horinji foi um espaço aberto a comunidade, traduzindo uma preocupação sempre presente em Dōgen, de fazer do budismo uma “religião do povo”.

Em 1244 se estabeleceu no Mosteiro Daibutsuji, na Província de Etchizen, e 2 anos depois mudou seu nome para Eiheiji.

No outono de 1252, Dogen adoeceu. Ele transmitiu seu manto a Koun Ejo, fazendo-o abade de Eiheiji. A convite de Hatano Yoshishige, Dogen foi a Kyoto em busca de uma cura para sua doença. Em 1253, pouco depois de chegar a Kyoto, Dogen faleceu. Pouco antes de sua morte, ele havia escrito o poema:

“Cinquenta e quatro anos iluminando os céus. Um salto trêmulo arrebenta com bilhões de palavras. Hah! O corpo inteiro procura por nada. Vivendo, eu mergulho nas Fontes Amarelas.”

“Estudar o Caminho é estudar a si próprio. Estudar a si próprio é esquecer-se de si próprio. Esquecer-se de si próprio é tornar-se iluminado por todas as coisas do universo. Ser iluminado por todas as coisas do universo é livrar-se do corpo e da mente, de si próprio e dos outros, neste momento, até mesmo os traços de iluminação são eliminados, vida com iluminação sem traços contínua para sempre.”

Mestre Dōgen Zenji

Principais obras de Mestre Dogen Sama

Para que pudesse encorajar o maior número possível de pessoas a praticar zazen, Dogen Zenji escreveu o Fukanzazengi (Recomendação Universal de Zazen), no qual cuidadosamente explica o significado de zazen e como praticá-lo.

Mestre Dogen também escreveu Bendowa (Tratado Sobre o Discernimento do Caminho), em formato de perguntas e respostas, no qual ensina que a prática de zazen é o verdadeiro Caminho de Buda.

No seu trabalho mais importante, Shobogenzo (O verdadeiro Tesouro do Olho do Dharma) que se estende por mais de noventa capítulos, Dogen  transmite em profundidade a mente do despertar espiritual.

Fontes de Pesquisa

  • Denkoroku- Anais da Transmissão da Luz – Mestre Keizan Jokin Daiosho
  • A Espiritualidade Zen Budista – Faustino Teixeira
  • Histórias de Dōgen Zenji – mangá – Ilustrações de Fumio Hisamatsu – Sotoshu Shumucho
  • Site – Shunya